COLATINA: DE VOLTA AO PASSADO


Em outubro de 1988, a Revista Nossa publicou um importante registro sobre a formação e o desenvolvimento de Colatina, reunindo relatos históricos sobre os primeiros núcleos habitacionais, o crescimento urbano e as famílias pioneiras que ajudaram a construir a história do município.

O editorial, assinado por Luiz Carlos Maduro, destaca desde o surgimento de Colatina Velha, em 1889, passando pela chegada da estrada de ferro em 1906, a expansão da então Rua de Cima — atual Rua Santa Maria —, além do desenvolvimento de regiões como Vila Nova, Maria Ismênia, Vila Lenira, São Vicente e outras localidades que marcaram o crescimento da cidade ao longo das décadas.

A publicação também resgata a influência dos imigrantes italianos, alemães e poloneses na consolidação econômica e social da região, além de trazer críticas à falta de valorização da cultura e da memória histórica capixaba por parte do poder público da época.

Mais do que um simples editorial, o texto se tornou um documento histórico, preservando memórias e homenageando aqueles que deram os primeiros passos para o desenvolvimento de Colatina. 

 

Abaixo o editoral completo publicado na página 1 da Revista Nossa nº 37 de outubro de 1988.

EDITORIAL
No início, na época da formação da povoação de Colatina, o primeiro núcleo de habitação foi em Colatina Velha, em 1889.
Com o advento da estrada de ferro, em 1906, o progresso começou a se estender na região da atual Av. Getúlio Vargas, motivado pela construção da estação ferroviária na então Praça Municipal, onde, inclusive, havia, desde 1903, o sobrado construído pelo imigrante italiano Angelo Giuberti.

Já nos anos 20, surgia um importante núcleo habitacional com alguns sobrados e casas de estilo gótico construídos na chamada Rua de Cima que posterior mente passou a se chamar Rua Santa Maria, por onde passava a "maria fumaça". Esta passou a ser a rua da elite da cidade, onde havia o importante Clube Recreativo, que, além dos tradicionais bailes, motivava encontros de lustres autoridades das redondezas e do Estado.
Na época do surgimento de Rua de Cima, paralelamente acontecia também a ocupação da parte mais alta, com majestosas casas em cuja região se deu o nome de Rua 21 de Abril.
Em 1915, Colatina já tinha moradores com habitações no morro que mais tarde passaria a se chamar Favela, que tom como pioneiro neste ano a família de Antonio José Pinto e Francelísia Pinto, cujos filhos residem na região que atualmente se chama Perpétuo Socorro.
Nos anos 20, quando nascia a Rua Santa Maria e a 21 de Abril, surgiam também habitações com imponentes casas na subida do morro, local que recebeu o nome de Ladeira da Caixa, pelo motivo da construção da caixa d'áqua para abastecer a cidade na subida da favela.
Em 1926, quando Colatina já alcançava certo progresso, com alguns estabelecimentos comerciais em sua região central, entre morros e o Rio Doce, o presidente do Estado, Florentino Avidos, lançava a pedra fundamental de construção da enorme ponte sobre o Rio Doce, ligando a cidade a outra margem para passagem da projetada ferrovia que se estendia até a povoação de Nova Venécia, ligando-se à ferrovia que já existia em São Mateus.
O empreendimento da Estrada de Ferro não foi avante, mas, em 1928, a ponte foi concluída, fato que motivou o rápido desenvolvimento de Colatina com o forte interesse dos imigrantes italianos, alemães e poloneses em se estabelecerem na promissora região do norte do Rio Doce.
Em 1930, enquanto o progresso de Colatina se estendia para o interior, formando vilas e propriedades, a região urbana também progredia.
Com o surgimento da Fazenda Vitalina, de propriedade de Pedro Vitalli, o progresso se expandiu nas margens do Rio Santa Maria, No início da década de 40, um pequeno povoado também se formava próximo da Fazenda Vitalina, que mals tarde passou a se chamar Vila Nova.
Ainda no início da década de 40, era povoada a região próxima ao atual Estádio Municipal, na atual Rua Castro Alves e na Beira Rio, que mais tarde foi denominada de Avenida Rio Doce, tendo como pioneiros as famílias Miranda, Iglesias, Sebastião Ferreira, Meira, Paulino e Baiano,
Quanto As regiões de Maria Ismênia e Vila Lenira, sabe-se que foram ocupadas na época do surgimento da povoação de Colatina Velha, no final do século passado, Só que estas terras foram ocupadas com formação de propriedades pelos imigrantes italianos, tais como: Romano Brocco e Amabilis Lavagnolli que formaram, em 1897, uma colônia, onde hoje é Maria Ismênia, Em Vila Lenira a ocupação se deu pelas familias Lavagnolli (1882), Bernardi na (1904), Garbini, Chiepp, Margoto e Favoretto.
Maria Ismênia, contudo, teve sua população formada no início da década de 40, juntamente com Vila Nova, enquanto que Vila Lenira só viria a se desenvolver no final de 1942, após o loteamento das terras feito pelo proprietário Leanirio Signorelli.
São Vicente, o bairro vizinho de Colatina Velha, teve seu desenvolvimento na década de 30, quando all se estabeleceram as familias de Martin Scarton, Antonio Zanoteli, Tio Xisté, Antonio Gon, Spinguer, Rossmann, Pedro Ponche, Alberto Romenha e Aristides Miranda,
Esta é mais uma edição da revista Nossa abordando a história do nosso Município que por certo será de grande valia para as gerações atual e futura.
Fica registrado meu protesto contra o Govemo do Estado que tem por habito não apolar as coisas de nossa terra, principalmente do que diz respeito a nossa Cultura, não dando com isto, qualquer valor ao nosso glorioso passado histórico.
Registramos, também, nosso protesto contra o Banco do Estado do Espírito Santo que se negou a pagar publicidade inserida na edição "História da Colonização do Norte. Verba aquela, destinada a viabilização complementar daquela edição. (Nossa história foi caloteada).
Acima de tudo isto, está o meu particular compromisso com os leitores, que, apesar destes contratempos, procuro trilhar um caminho reto, sem demagogia.
Finalizamos dedicando esta edição a todos aqueles que deram os primeiros. passos para o desenvolvimento do município de Colatina. A seus herdeiros, nossos parabéns, pois a herança maior foi a bravura de seus antepassados.
Luiz Carlos Maduro - Editor e diretor da Revista Nossa 

                           

COLATINA NO INÍCIO DO SÉCULO
Foram necessários muitos anos de intensas pesquisas para se descobrir com detalhes algumas partes da história política do município de Colatina. Para conhecermos a história da formação do núcleo, vila, município e cidade de Colatina, buscamos nos registros, de épocas diferentes, subsídios que pudessem dirimir as dúvidas sobre fatos históricos, retocados por força da falta de um arquivo e que foram alvo de comentários, estórias e contos ao longo das décadas, por pessoas ligadas à política local.
É bem provável que muitas dessas possíveis dúvidas de nossa história venham a corrigir algumas distorções causadas pela desinformação e pela parcial inexistência de dados corretos do que se passou ao longo desses 67 anos de transformação do município e de quase um século do aglomerado de imigrantes estrangeiros que para cá vieram e aqui edificaram uma das mais promissoras cidades do estado capixaba.
A colonização do território colatinense só se efetivou a partir do último decênio do século dezenove, quando os movimentos migratórios, depois da formação de núcleos em Santa Leopoldina, tomaram a direção do extremo norte do Estado. Desta forma, dentro do que ainda se compreendia serem os limites municipais, formou-se a primeira povoação, denominada de Mutum (Boapaba) e, logo depois, Barracão de Baunilha, ås margens do rio Baunilha.
No no Doce, com inúmeras matas que formavam uma espécie de cinturão verde, uma barreira florestal, que deparava com a margem esquerda do rio e as constantes ameaças dos andarilhos (bandoleiros), mais as presenças ameaçadoras dos índios, foram surgindo alguns tímidos casebres de pau-a-pique (casas feitas de paus entrelaçados com barro), onde hoje está localizado o bairro de Colatina Velha, na época denominado de Arraial da Barra do Santa Maria.
No ano de 1899, em 9 de dezembro, o local de Colatina Velha era elevado à categoria de distrito e, mais ainda, à sede do mesmo, O engenheiro Gabriel Emílio da Costa deu-lhe o nome de Colatina, prestando uma homenagem à dona Colatina, esposa do então governador do Espírito Santo, Muniz Freire. Esta homenagem não foi senão uma forma encontrada pelo engenheiro para ver o local prosperar, pois vaticinava ele que o local, tendo o nome da esposa de Muniz Freire, muitos benefícios o govemo traria ao recente povoado. Linhares nesta época era a sede do município.

                         


PROGRESSO
Em 1899, onze anos depois que a princesa Izabel assinara a libertação dos escravos, os sinais de progresso eram evidentes. Com a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no ano de 1906, Colatina, ainda distrito, assumia uma posição amplamente superior, em termos de desenvolvimento, em relação a Linhares, praticamente atraindo as pessoas para aqui constituírem suas famílias e seus negócios, onde encontravam facilidades para se adaptarem e adquirirem suas propriedades. Linhares foi, então, aos poucos se isolando em termos de progresso, tendo em vista que a Vila Colatina começava a se tomar preferida, graças à estrada de ferro, que facilitava as condições de vida no extremo norte do estado.
Desta forma, Linhares não mais atendia aos interesses da comunidade e veio logo, no ano de 1907, a perder a sede da Comarca, que se transferiu para Colatina. Foi então que, em 22 de novembro, a Lei de número 488 dava maiores respaldos para Colatina, quando o distrito foi elevado A categoria de Vila, mantendo originalmente o nome que até hoje ostenta. 

Fonte: Revista Nossa — Outubro de 1988 | Ano VI | Nº 37
Diretor e editor responsável: Luiz Carlos Maduro
Contribuição do acervo de Cláudio Wotkosky.

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